quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

FACÇÕES NO COMANDO

ZERO HORA 31/12/2014 | 07h05

Farra do pó no Presídio Central: seis presos vão pagar a conta. Direção da casa penitenciária anunciou medidas após reportagem do Diário Gaúcho mostrar uma festa dos detentos regada à droga

por Cristiane Bazilio; Eduardo Torres



Foto: Reprodução / Arquivo pessoal

Se o Natal foi de festa regada à cocaína no Pavilhão B do Presídio Central, o Ano-Novo deve ser diferente para, pelo menos, seis envolvidos no vídeo, divulgado pelo Diário Gaúcho, que mostra presos fazendo fila para cheirar carreiras da droga nos corredores da primeira galeria. Conforme o major Guatemi de Souza Echart, que responde pela direção do Central, o autor do vídeo e outras cinco pessoas que aparecem nas imagens já foram identificadas, estão isoladas e deverão ser transferidas de presídio nos próximos dias. Transferência, que, segundo o oficial, não está associada a questões de segurança dos apenados – que poderiam sofrer retaliações por conta do vazamento das imagens – e sim à punição imposta pela administração da casa prisional.



– É de praxe que todo e qualquer preso que se envolva em um novo crime, dentro do presídio, seja de qual tipo for, seja transferido – explicou o major.
Até as 18h de terça-feira, no entanto, a Vara de Execuções Criminais não havia recebido nenhum ofício com o pedido das transferências. Isto, conforme o major Guatemi, poderia levar alguns dias em função dos trâmites do processo.

– Assim que as imagens foram a público (na segunda-feira), conseguimos identificar o preso que filmou e recolher o celular com o qual foram feitas as imagens. Hoje (terça) à tarde, encerramos a ocorrência, registramos na Polícia Civil, e amanhã (nesta quarta) será aberto inquérito para apurar todas as questões que envolvem este episódio. Então encaminharemos o pedido da remoção dos presos. Todos responderão por associação ao tráfico e apologia ao crime – afirmou Guatemi.



Churrascada prévia: "Preso não come carne crua"

A farra do pó mostrada no vídeo teria sido antecedida por uma churrascada entre os reclusos, conforme informações obtidas pela reportagem do Diário Gaúcho. A informação não foi confirmada pela direção do Central, que, no entanto, não descarta a possibilidade e trata como normal a realização de churrascos no interior das galerias.

– Os presos compram carne mesmo para comer, é um dos materiais vendidos na cantina do Central, e assam mesmo. Preso não come carne crua. Não deixaram de ser gente por estarem presos. Essa "festa" toda que estão noticiando é fantasiosa, dizer que teve uma "grande churrascada" – disse o major.

Em 2013, uma reportagem do Diário Gaúcho revelou um esquema de cantinas piratas dentro do Presídio Central. O mercado oficial vende desde refrigerante até produtos básicos, como os de higiene. Mas a atividade já foi engolida pelo sistema dominado pelas facções.

Os presos comuns não vão à cantina central. Quem vai lá são os "cantineiros", designados pela facção para fazer todas as compras da galeria. Depois, os produtos ficam nas chamadas subcantinas, dentro das galerias, e são vendidos com preços bem mais altos.



Facções estão no comando

Devido à superlotação crônica do Presídio Central, as celas ficam abertas em tempo integral. Isso permite aos presos circularem livremente pelo interior das galerias, nas quais a guarda não entra.
Para que a ordem seja mantida, os detentos se organizam com as chamadas prefeituras (grupos de presos ou líderes de facções que representam e controlam as galerias, com o reconhecimento da administração e do Judiciário). Cada prefeitura tem cerca de 30 presos, que dividem funções (são os chamados embolados).

No Presídio Central, atualmente, há oito galerias ocupadas por facções ou grupos organizados: Os Abertos ocupam a 1ª galeria do pavilhão B e a 2ª galeria do pavilhão D. Os Manos vivem na 2ª e na 3ª galerias do Pavilhão B. Os bala na Cara ficam na 3ª do F. A turma da Conceição responde pela 2ª do A e, a da Vila Farrapos, pela 1ª e pela 3ª do D.



De acordo com o juiz da Vara de Execuções Criminais (VEC) Sidinei Brzuska, as galerias dos Manos têm na liderança os presos identificados como Ben Hur e Marcelo. As da Vila Farrapos, são comandadas por Matheuzinho e Ronaldinho. A da Conceição, por Xu. Até há poucas semanas, os Bala eram liderados por Raimundo, que foi transferido para Charqueadas. Robinho, um preso que na segunda-feira trocou o regime fechado pelo semiaberto e, consequentemente deixou o Central, liderava Os Abertos da 1ª galeria do B. A direção do presídio já foi comunicada do nome do sucessor, mas não o divulgou.

FACÇÕES E GRUPOS:

* 2ª galeria do pavilhão A: Conceição – Líder: Xu
* 1ª galeria do pavilhão B e 2ª do D: Os Abertos – Líder: ?
* 2ª e 3ª galerias do pavilhão B: Os Manos – Líder: Ben Hur e Marcelo
* 1ª e 3ª galerias do pavilhão D: Vila Farrapos – Líder: Matheuzinho e Ronaldinho
* 3ª galeria do pavilhão F: Bala na Cara – Líder: ?



"A convivência com esses grupos foi necessária para a 'casa não cair'"

Para o secretário estadual da Segurança Pública, Airton Michels, enquanto existir um presídio superlotado, o problema do tráfico persistirá. Michels admite que policiais militares já foram presos por facilitar a entrada de drogas no Central e observa que fim das cantinas em novas penitenciárias ajuda a combater as facções.

Diário Gaúcho – Como o senhor reage a essa da farra da cocaína?
Michels – Desde antes de assumir a secretaria, sempre disse que o maior problema da nossa segurança pública era o Presídio Central. Isso que foi visto não acontece só hoje, nem há quatro anos. É de muitos anos, e não surpreende em um lugar onde as facções criaram seus espaços e há superlotação que inviabiliza o controle pelo Estado.

Diário Gaúcho – Mas por que as facções exercem tanto poder no Central?
Michels – A existência de facções é uma realidade em qualquer presídio do mundo. No Central, diria que essa convivência com esses grupos foi necessária para a "casa não cair", como se diz. Infelizmente, esse poder e as relações do tráfico fortalecem a produção do crime. Há relação direta com a criminalidade nas ruas. Eles podem voltar a firmar suas parcerias nas novas cadeias, mas em condições precárias, eles dominam.

Diário Gaúcho – O tráfico é uma das fontes de lucro e dominação das facções. Mas há verdadeiros mercados lá dentro, a partir da cantina, que gera lucro até mesmo ao Estado. Como será nas novas cadeias?
Michels – Os novos presídios não terão cantinas nem espaço para a criação delas. Era uma situação que não poderíamos acabar de uma hora para outra no Central, até mesmo porque o Estado não teria condições de administrar a situação em um ambiente superlotado. Ali, a cantina é algo necessário. O atual modelo, com a cobrança de um aluguel, a partir de licitação, de forma lícita, foi a forma encontrada pela Susepe para acabar com um antigo problema que envolvia muita corrupção nas cantinas.

Diário Gaúcho – A entrada de drogas e celulares na cadeia tem relação com a corrupção de agentes públicos. Como é feito o controle disso?
Michels – Sempre foi uma prioridade nossa combater a corrupção no sistema penitenciário. Fortalecemos a corregedoria da Susepe e tivemos muita resistência dos agentes, mas atuamos, inclusive com mudanças nas direções de algumas prisões. No Central, a Brigada Militar não é corrupta. Nesse período, foram presos, no máximo, três PMs comprovadamente envolvidos com o tráfico na cadeia.

Nenhum comentário: