quinta-feira, 2 de agosto de 2012

UM SIMBOLO DO DESCASO

ZERO HORA 31 de julho de 2012 | N° 17147

VAGAS INTERDITADAS. Um símbolo do descaso com o colapso carcerário. Pronto e sem uso desde 2010, alojamento de instituto penal na Capital não tem data para funcionar

FRANCISCO AMORIM 


Sem água encanada e luz elétrica, um alojamento para 80 apenados do semiaberto no Instituto Penal Miguel Dario, na Capital, é o novo símbolo do descaso com o colapso carcerário. Erguido em julho de 2010 ao custo de R$ 600 mil, o local que jamais foi ocupado agora poderá receber uma unidade de tratamento de dependentes químicos recolhidos ao sistema prisional. Mas ainda não se sabe quando isso deve ocorrer.

Desde o início, o prédio instalado na parte mais alta do terreno onde está o albergue Miguel Dario, no bairro Agronomia, parece fadado ao esquecimento. Pensado para abrigar 160 detentos, teve sua capacidade reduzida para 80 por questões de segurança. Mesmo com a cautela, nenhum preso sequer pernoitou ali desde que foi inaugurado há dois anos. O motivo é que o projeto elaborado na gestão passada do governo do Estado não previa redes elétrica e hidráulica.

– Como vamos colocar um preso em um local desses? – diz Mário Pelz, superintendente-adjunto dos Serviços Penitenciários.

Conforme ele, a decisão de não mais usá-lo para a finalidade para a qual foi projetado se coaduna com a interdição judicial que se estendeu aos outros módulos emergenciais erguidos na mesma época. Na base da decisão da Justiça, está o argumento de que os locais não seriam adequados para o recolhimento de presos por terem estrutura frágeis para contê-los.

– Agora queremos aproveitá-lo para outras funções – confirmou Pelz.

A ideia em análise pela Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) é criar ali uma unidade de atendimento a apenados dependentes químicos. O projeto, no entanto, não tem prazo para ser colocado em prática. Enquanto o módulo se deteriora à espera de uma nova função, o diretor de Obras da Secretaria Estadual de Obras Públicas, Odir Baccarin, promete água e luz para os próximos meses.

– Dinheiro para isso temos – diz.


JUSTIÇA INTERDITA INSTITUTO PENAL

ZERO HORA 01 de agosto de 2012 | N° 17148

FALTA DE SEGURANÇA

Desde ontem, o Instituto Penal de Charqueadas está proibido de receber presos por um período de 30 dias. A decisão foi tomada ontem pelo juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, atendendo ao pedido do Ministério Público Estadual, encaminhado na segunda-feira.

Omagistrado, em sua sentença, apontou a falta de segurança no local como fator principal da interdição. Desde fevereiro de 2010, houve quatro homicídios qualificados – o último deles na semana passada.

O instituto não enfrenta a superlotação de presos, mas, segundo o MP, o quadro de agentes está abaixo do mínimo necessário. No ano passado, a unidade também ficou um período interditada por problemas de segurança.

Brzuska afirmou ainda que o sistema semiaberto da Região Metropolitana está em colapso e que a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) não tem se posicionado sobre a perda de vagas. A Susepe afirmou ontem, por meio de sua assessoria de imprensa, que avaliará a decisão judicial com uma equipe técnica para decidir que medidas serão tomadas.

PRISÕES FEMININAS NO RS


ZERO HORA 01 de agosto de 2012 | N° 17148

VERBA EM DISPUTA. Estado projeta três prisões femininas. RS enviou a ministério proposta para receber dinheiro e construir as cadeias

FRANCISCO AMORIM 


Para reduzir o número de presas recolhidas em galerias de presídios masculinos no Interior, o governo do Estado pretende abocanhar cerca de R$ 30,5 milhões do Ministério da Justiça para a construção de duas penitenciárias regionais femininas e uma regional mista em 2013. Os projetos das três novas casas prisionais em Rio Grande, Passo Fundo e Alegrete foram enviados na semana passada para Brasília e, se aprovados pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen), devem ser executados com recursos o Fundo Penitenciário Nacional (Funpen).

Conforme o superintendente dos Serviços Penitenciários, Gelson Treiesleben, a ideia é construir presídios regionais para reduzir o número de presas gaúchas em alas adaptadas – 54,4% da massa carcerária feminina está em galerias ou pavilhões dentro de cadeias construídas para homens. A proposta tenta também evitar que as detentas fiquem longe das famílias ao serem transferidas para as únicas três penitenciárias femininas gaúchas, localizadas em Torres, Guaíba e Porto Alegre, ou para anexos especiais de cadeias em Charqueadas e Montenegro, situações que contraria as determinações da Lei de Execução Penal (LEP).

Objetivo é gerar 42 mil vagas até 2014 no país

A Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) quer aproveitar a disposição do governo federal em investir em casas prisionais para mulheres nos próximos anos. Essa é uma das principais ações do Programa Nacional de Apoio ao Sistema Prisional, lançado pelo Ministério da Justiça por meio do Depen em novembro de 2011. O objetivo do programa é investir R$ 1,1 bilhão para gerar pelo menos 42 mil vagas até 2014 no país. O Depen vai aplicar, no máximo, R$ 30 mil por vaga criada.

Para facilitar a execução dos projetos, o Depen vai oferecer aos Estados interessados um banco com seis projetos arquitetônicos padronizados para cadeias públicas (masculinas e femininas) e penitenciárias femininas que já contemplam os parâmetros exigidos. O Rio Grande do Sul, no entanto, preferiu utilizar projetos próprios.

Como os projetos gaúchos foram enviados no dia 23, e o Depen tem até 20 dias (contados a partir da entrega da documentação exigida) para avaliá-los, a resposta do governo federal sobre a liberação dos recursos deve ser divulgada em meados deste mês.

A Caixa Econômica Federal também terá de aprovar o projeto, após o Depen, de acordo com as regras estabelecidas pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP). O prazo de avaliação pelo banco é de 45 dias.


ZERO HORA 31 de julho de 2012 | N° 17147
PRISÕES AMPLIADAS. Ministério oferece projetos a Estados


O prazo para que os Estados apresentem propostas de criação de vagas em cadeias públicas e penitenciárias femininas termina na sexta-feira. O Departamento Penitenciário Nacional (Depen) vai oferecer aos Estados um banco com seis projetos arquitetônicos padronizados. De acordo com o Ministério da Justiça, a meta é investir R$ 1,1 bilhão e gerar, pelo menos, 42 mil vagas até 2014.

Os projetos devem obedecer às regras estabelecidas. Após a entrega dos documentos, o Depen terá 20 dias, e a Caixa Econômica Federal, 45 para fazer a análise das informações. A previsão do Ministério da Justiça é que as construções de cadeias públicas ou ampliações das existentes sejam iniciadas até 2013.



QUANTOS PRESOS QUEREMOS TER?

ZERO HORA 1 de agosto de 2012 | N° 17148. ARTIGOS

PIO GIOVANI DRESCH, PRESIDENTE DA AJURIS 

Quando se trata de crimes e penas, é relativamente fácil conhecer o pensamento médio do brasileiro: 1) nosso sentimento de justiça nos leva a desejar sempre a prisão dos réus, como castigo por um mal que cometeram; 2) queremos que o cumprimento da pena ocorra muito longe de nós, de preferência em outra cidade, para que nosso meio não seja contaminado; 3) não nos interessa saber o modo como a pena é cumprida (amiúde, a notícia de más condições carcerárias nos agrada, porque satisfaz nosso desejo de vingança); 4) pelas razões anteriores, não nos interessa cobrar do Estado a construção de presídios ou a criação de condições para que seja mantida a dignidade dos presos.

A ideia do direito penal máximo está arraigada entre nós, sem a menor preocupação com as consequências práticas do desejo de condenação. O bordão “a polícia prende, o juiz solta” reflete bem esse sentimento, mas quem assim fala não costuma lembrar que nossos presídios estão todos superlotados e simplesmente explodiriam se fossem cumpridos todos os mandados de prisão expedidos.

Não percebe a sociedade que a questão vai para muito além do desrespeito aos direitos humanos: ao manter os presos em condições subumanas e submetidos ao crime organizado que comanda o interior das cadeias, nosso sistema contribui para que, ao final da pena, retornem ao convívio social prontos para cometerem mais crimes, provavelmente em intensidade maior do que aqueles que ensejaram a condenação anterior.

Precisamos refletir bem quando discutimos a legislação penal e a que trata do cumprimento das penas. Se queremos mais presos, precisamos ter claro que há um preço para isso. Ao avaliar o custo de construção de uma das penitenciárias anunciadas pelo governo do Estado, a de Arroio dos Ratos, insuficiente para atacar o problema de superlotação do Presídio Central, podemos constatar que a criação de cada vaga para preso, sem considerar todo o custo posterior de manutenção, sairá pelo preço de R$ 36 mil.

Este cálculo não pode deixar de ser feito. O Brasil é hoje o terceiro país do mundo em população carcerária, perdendo apenas para os Estados Unidos e a China. Somente em nosso Estado, a população carcerária passou de 12 mil para 30 mil nos últimos quinze anos.

Não podemos nunca esquecer que isso tem um custo; são valores que deixam de ir para a educação, saúde e até para a segurança. É uma escolha que fazemos. Mas, uma vez feita a escolha, nossa responsabilidade e a dos nossos governantes é assegurar que haja vagas suficientes e dignas para o cumprimento da pena.

É para discutir essas questões que as entidades que compõem o Fórum da Questão Penitenciária realizam amanhã, no auditório do Presídio Central, o Seminário O Presídio Central e a realidade prisional: quantos presos queremos ter?, no qual discutirão com as autoridades, com estudiosos da matéria e com os próprios presos as soluções para esse grave problema.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Será que é preciso lembrar que a pena tem que ser temida? Será necessário afirmar que a justiça tem que ser coativa, severa, imparcial? Será importante indagar qual o papel do Judiciário na execução penal? 

Não é só o brasileiro que "deseja sempre a prisão dos réus, como castigo por um mal que cometeram" ou que seja prefere que "o cumprimento da pena ocorra muito longe de nós, de preferência em outra cidade, para que nosso meio não seja contaminado". Nos EUA, o sucesso do programa ""tolerância zero" foi pautado no pensamento que se deve punir as pequenas infrações para coibir os grandes crimes, sendo amparado pela integração das leis civis e penais e pelo respeito à justiça e à polícia. Agora, o desinteresse pelas condições dos presos mais se deve à impunidade do que pelo desejo de vingança. 

O bordão “a polícia prende, o juiz solta” nada mais é do que o reflexo de um sistema de justiça criminal corporativo, fracionado e inoperante que trata os delitos de forma burocrata, morosa, distante das ilicitudes e despreocupado com as partes envolvidas e com  paz social do povo brasileiro. 

Os presídios estão superlotados pela morosidade da justiça e pela insistência do Poder Judiciário em aplicar medidas superficiais, falaciosas e demagógicas que não conseguem mudar a postura negligência e criminosa do Poder político que mais semeiam o terror e o retrabalho dos policiais nas ruas com a soltura fácil de uma bandidagem cada vez mais ousada e cruel do que respeitar direitos, dar segurança e criar oportunidades para os presos. O governador continua livre e impune para não cumprir as políticas prisionais previstas na constituição do RS, não seguir seus deveres na execução penal e nem respeitar os direitos humanos, agindo com descaso nas questões de ordem pública e diante de uma justiça que implora ao invés de agir.

Se a justiça brasileira fosse coativa e diligente, os políticos que administram e legislam não ficariam dormentes, pois teriam seus interesses e mandatos ameaçados pelo poder da justiça e força da lei. 

Aliás: O custo a ser observado deveria ser o de vidas (presos e não presos) e não o de dinheiro. 

PRESOS FALAM EM SEMINÁRIO

ZERO HORA 2 de agosto de 2012 | N° 17149

CENTRAL EM DEBATE

Pela primeira vez em sua história, o Presídio Central de Porto Alegre abre as portas para a população no encontro que discutirá a realidade do sistema carcerário do Rio Grande do Sul. Hoje, o auditório do presídio receberá autoridades e especialistas no seminário Quantos presos queremos ter?.

Promovido pelo Fórum da Questão Penitenciária, o evento começa às 8h30min. Os próprios apenados terão espaço para manifestação. Haverá ainda quatro painéis com uma panorâmica do presídio e debates sobre a política prisional do Estado. 

A entrada é gratuita, mas a capacidade do local é limitada. O ingresso será por ordem de chegada.

O CAOS PRISIONAL TEM UM GRANDE CULPADO

JORGE BENGOCHEA

Em primeiro lugar, é preciso aplaudir a iniciativa do Presidente da Ajuris em ouvir os apenados dentro do Presídio Central no Fórum da Questão Penitenciária. Entretanto, é preciso repensar a postura do Poder Judiciário diante do "problema em discussão" que foca a "a superlotação dos presídios em todo o Estado e a precariedade do Presídio Central".

Acredito ser falaciosa a afirmação de que "quanto mais presos confinados, haverá menos dinheiro para a educação, saúde e até para a segurança." O fato é que estas três áreas são sucateadas pelo Estado e a existência de mais presos é fruto do trabalho e retrabalho policial, da morosidade da justiça em julgar e da negligência impune do Poder Executivo que deixa de cumprir a lei de execuções penais, aplicar as políticas prisionais previstas em lei e de disponibilizar presídios e centros de reabilitação com oficinas de trabalho interno e externo, segurança, dignidade, salubridade, monitoramento e controle total por guardas uniformizados e preparados para nível de segurança e gênero do estabelecimento prisional.

Na realidade o Poder Judiciário não quer se comprometer e nem atritar com o poder político, Ao se omitir diante de graves violações de direitos humanos contra os apenados da justiça, o poder decide pela liberdade da bandidagem, tolera a impunidade dos criminosos e salvaguarda a negligência do Executivo, em detrimento do respeito às leis, da dignidade dos presos dentro dos estabelecimentos penais e da segurança do cidadão nas ruas e lares.

Realmente, "a vida não tem preço". Em países do primeiro mundo, a justiça é severa a partir das pequenas infrações para conter os grandes crimes, numa visão holística de segurança, sem se deter para poderosos e autoridades, de modo que todos devem cumprir e respeitar as leis. Se a justiça brasileira agisse aplicando a lei com coatividade, com certeza as leis seriam respeitadas e os governantes não pensariam duas vezes para investir em "saúde, educação e segurança".

Na minha opinião, leis existem no Brasil para solucionar este problema, mas o caos prisional tem um grande culpado: a tolerância da justiça brasileira. Enquanto a justiça não aplicar a lei, o problema permanecerá insolúvel já que as medidas de interdição e soltura de presos só favorecem o irresponsabilidade, o crime de Estado e a impunidade. Se o Ministério Público entrasse com uma denuncia do Poder Executivo por violação de direitos humanos e prisionais e pelo descumprimento da constituição do RS, e o Poder Judiciário acatasse esta denuncia passando a processar o Chefe do Poder Executivo através do STJ, o Poder político com certeza iria agir rapidamente para não ser responsabilizado criminalmente e com a perda do mandato.

Se "a população não suporta mais é ver bandidos presos de manhã e soltos à tarde" pode sim apontar reagir contra um sistema judicial fraco, tolerante e inoperante e contra um Congresso Nacional que promove o abrandamento das leis, vários direitos e muitos privilégios para autores de ilicitudes, deixando de tolerar e aceitar passivamente as decisões falaciosas e demagógicas que visam atender o apadrinhamento entre Poderes que é conivente e salvaguarda interesses das autoridades negligentes em seus deveres, produzindo uma "verdadeira inversão de valores: o cidadão se prende em casa e o bandido se livra solto por aí, livre que nem um passarinho."

Além disto, é preciso entender que os apenados são seres humanos e a maioria pensa em se reabilitar, sobreviver no mercado de trabalho e conviver em sociedade com suas famílias. Mas enquanto perdurar as atuais condições, eles jamais conseguirão atingir este objetivo social sendo depositados em presídios desumanos e inadequados como se fossem animais atirados em jaulas sob controle dos mais ferozes, sem direito a trabalho, dignidade, lazer, saúde e segurança. A cada soltura, abandonado pelo Estado e aliciado pelo terror, será obrigado a se manter no crime para sobreviver potencializando a crueldade e o sentimento de ódio contra uma sociedade que o rejeita.

A NOTÍCIA 

ZERO HORA 02 de agosto de 2012 | N° 17149

CENTRAL EM DEBATE. Presos falam em seminário

Pela primeira vez em sua história, o Presídio Central de Porto Alegre abre as portas para a população no encontro que discutirá a realidade do sistema carcerário do Rio Grande do Sul. Hoje, o auditório do presídio receberá autoridades e especialistas no seminário Quantos presos queremos ter?.

Promovido pelo Fórum da Questão Penitenciária, o evento começa às 8h30min. Os próprios apenados terão espaço para manifestação. Haverá ainda quatro painéis com uma panorâmica do presídio e debates sobre a política prisional do Estado. A entrada é gratuita, mas a capacidade do local é limitada. O ingresso será por ordem de chegada.

QUANTOS PRESOS QUEREMOS TER? NENHUM.


ZERO HORA 02 de agosto de 2012 | N° 17149. ARTIGOS


Alceu Medeiros, advogado.

O doutor Pio Giovani Dresch, presidente da Ajuris, propõe para debate o tema “quantos presos queremos ter”, em seu brilhante artigo publicado ontem em ZH, aliás, matéria de discussão do seminário “O Presídio Central e a realidade prisional: quantos presos queremos ter?”, no qual se discute com as autoridades, com os estudiosos da matéria e com os próprios presos as soluções para esse grave problema.

O problema em discussão é apenas um, ou seja, a superlotação dos presídios em todo o Estado e a precariedade do Presídio Central.

Não é só em nosso Estado que existe esse problema. É em todo o Brasil. Ninguém de sã consciência pode achar boa a superlotação de presos em qualquer presídio, tampouco em qualquer outro estabelecimento, como acontece atualmente em hospitais do Estado e no país.

Nisso estamos de acordo. Divirjo apenas do insigne magistrado sobre a quantidade de presos que queremos ter confinados atrás das grades. Segundo ele, quanto mais presos confinados, haverá menos dinheiro para a educação, saúde e até para a segurança.

Ora, uma coisa não elimina outra. Para o meu gosto, eu não quero nenhuma pessoa presa. Eu quero, sim, viver em um país que me assegure o direito de viver livre e não atrás das grades como vive a maioria da população brasileira para se proteger dos bandidos. Quero, igualmente, ter o direito à saúde, educação e segurança, não importando o seu custo.

Qual é o valor da vida? A vida não tem preço! Se outros países ditos de Primeiro Mundo conseguiram tudo isso, principalmente segurança, por que nós brasileiros não podemos ter saúde, educação e segurança?

O povo abriu mão da vingança privada e da justiça pelas mãos próprias em favor do Estado, de tal modo, que o que deve prevalecer é o Estado democrático de direito, garantidor dos direitos humanos, e a legitimidade do Estado, o qual exerce o direito de punir, ou seja, aplicar as penas, em nome da sociedade, a qual se constituiu com base em um contrato social.

Porém, abrir mão da vingança privada e do justiçamento pelas próprias mãos não significa abrir mão em favor da impunidade, de leis mais brandas visando desafogar o sistema carcerário.

Precisamos discutir o sistema penal que queremos e as soluções para esse grave problema carcerário. Porém, não é com os presos que vamos discutir isso, tampouco no auditório do Presídio Central, e sim com a sociedade, pois todo o poder emana do povo (art. 1º, da CF/88), ouvindo o povo (sempre) em primeiro lugar.

Ninguém aqui vive em Sucupira, onde ninguém matava e ninguém morria – na novela de Dias Gomes, O Bem-Amado. Aqui se mata (e como) e ninguém vai preso.

A população não suporta mais é ver bandidos presos de manhã e soltos à tarde. Não é culpa da Justiça, todos nós sabemos, pois o Estado brasileiro optou por leis penais mais brandas em nome do desafogo do sistema carcerário, numa verdadeira inversão de valores: o cidadão se prende em casa e o bandido se livra solto por aí, livre que nem um passarinho.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Em primeiro lugar, é preciso aplaudir a iniciativa do magistrado Pio Giovani Dresch, presidente da Ajuris, em promover o debate “quantos presos queremos ter”. Entretanto, é preciso repensar a postura do Poder Judiciário diante do "problema em discussão" que foca a "a superlotação dos presídios em todo o Estado e a precariedade do Presídio Central".  Concordando com o autor do artigo e divergindo com o magistrado acredito ser falaciosa a afirmação de que "quanto mais presos confinados, haverá menos dinheiro para a educação, saúde e até para a segurança." O fato é que a existência de mais presos é fruto do trabalho policial, da morosidade da justiça em julgar e da negligência impune do Poder Executivo que deixa de cumprir a lei de execuções penais, aplicar as políticas prisionais previstas em lei e de disponibilizar presídios e centros de reabilitação com oficinas de trabalho interno e externo, vagas, celas para no máximo dois presos, segurança, dignidade, salubridade, locais reservados para visitação, triagem em salas especiais, parlatórios, monitoramento e controle total por guardas uniformizados e preparados para nível de segurança e gênero do estabelecimento prisional.     

O grande problema é o descaso do Poder Judiciário para com o direitos humanos e com a vida das pessoas, tanto do cidadão como dos presos. Ao se omitir diante de graves violações de direitos humanos, a justiça prioriza a liberdade da bandidagem, a impunidade dos criminosos e a negligência do Executivo, em detrimento do respeito às leis, da dignidade dos presos dentro dos estabelecimentos penais e da segurança do cidadão nas ruas e lares.  

Realmente, a "a vida não tem preço". Em países do primeiro mundo, a justiça é severa a partir das pequenas infrações para conter os grandes crimes, numa visão holística de segurança, sem se deter para poderosos e autoridades, de modo que todos devem cumprir e respeitas a lei. Se a justiça brasileira agisse aplicando a lei com coatividade, com certeza as leis seriam respeitadas e os governantes não pensariam duas vezes para investir em "saúde, educação e segurança". 

Discordando do autor do artigo, na minha opinião leis existem e o caos prisional tem um grande culpado: a tolerância da justiça brasileira. Se o Ministério Público entrasse com uma denuncia do Poder Executivo por violação de direitos humanos e prisionais e pelo descumprimento da constituição do RS, e o Poder Judiciário acatasse esta denuncia passando a processar o Chefe do Poder Executivo através do STJ, o Poder político com certeza iria agir rapidamente para não ser responsabilizado criminalmente e com a perda do mandato.

Se "a população não suporta mais é ver bandidos presos de manhã e soltos à tarde" pode sim apontar "culpa da Justiça" e culpa das  "leis penais mais brandas", mas não poderia tolerar decisões falaciosas e demagógicas que atendem interesses das autoridades negligentes em seus deveres,  produzindo uma "verdadeira inversão de valores: o cidadão se prende em casa e o bandido se livra solto por aí, livre que nem um passarinho."